quarta-feira, 8 de abril de 2015

Sinfonia tânica!


Em sua passagem por Santa Cruz, o embaixador do vinho uruguaio Daniel Arraspide realizou uma memorável degustação do que há de melhor na viticultura daquele país.



Uma noite realmente prazerosa! Este seria o resumo do encontro da Confraria do Sagu – confraria especializada na análise técnica de vinhos – ocorrido na última semana nas dependências do Hotel Águas Claras Higienópolis e que contou com a brilhante presença do jornalista e sommelier uruguaio Daniel Arraspide, que trouxe à provação dos confrades uma exclusiva amostra de vinhos uruguaios, que impressionaram pela qualidade e caráter de exceção.

Os vinhos uruguaios encontram-se num estágio relevante e representativo no mundo do vinho, afinal muitos de seus produtores vêm investindo em tecnologia e manuseio há vários anos, o que contribui para ter-se um produto final pleno em qualidade. Na década de 1970, houve uma renovação na vitivinicultura do Uruguai, uma reconversão, com novas técnicas de plantio e cultivo, bem como a introdução de novas variedades de uvas, que possibilitaram um desenvolvimento substancial à sua indústria de vinhos finos, agregando um salto de qualidade às vinícolas que passaram a ter reconhecimento de público e crítica daquilo que envasavam. O Uruguai é um dos menores países da América do Sul, tanto em extensão territorial como em habitantes, mas assim como a sua Celeste – nome dado a seleção uruguaia de futebol – também é bravo e obstinado quando o assunto é vinho. Sua produção vinícola com mais de 250 anos de história é respeitável e reconhecida, sendo hoje o quarto maior polo produtor de vinhos da América do Sul, com mais de 180 vinícolas lá estabelecidas. A Tannat é a sua casta mais emblemática – representando 45% de todo o cultivo hermano - e a que recebe os maiores suspiros entre os enófilos apaixonados pelo líquido de Baco.  A adaptação desta uva de origem francesa descobriu as condições climáticas perfeitas para recebê-la, com solo e clima invejáveis. Também a Sauvignon Blanc, a Cabernet Sauvignon, Pinot Noir e a Merlot produzem bons vinhos por lá. O Uruguai - em especial o sul do país - possui clima Atlântico e é beneficiado pela insolação típica do paralelo Sul 35 - o mesmo das regiões superprodutoras como Mendoza (Argentina), Santiago (Chile), Cape Town (África do Sul) e Adelaide (Austrália). Um pouco desta complexidade pode ser degustada, nos rótulos apresentados por Daniel e aqui resumidamente descritos.  


Os vinhos:

No leque apresentado, um vinho branco de guarda, o Pisano Gran Reserva Arretxea 2006 elaborado pelas uvas Viogner (87%), Chardonnay (8%) e Riesling Renano (5%). Aromas cítricos (abacaxi, pomelo, maçã), frutas brancas secas, avelãs, coco, toque floral, com coloração amarelo ouro com reflexos dourados, sedoso e macio em boca, com grande untuosidade. Um vinho para ser bebido solo, contemplativo e delicioso. Passagem de 12 meses em barricas de carvalho francesas de primeiro uso. Possui 14% de graduação alcoólica.

Depois foi o momento do Atlantico Sur Rosé de Tannat 2014 produzido pela Família Deicas, um vinho fácil de beber, com linda cor rosa salmão, morango evidenciado no aroma e notas de – incrível – avelãs, boca fina e agradável, redondo e aveludado no palato. 13,5% de graduação alcoólica.


A sinfonia de tintos iniciou com um vinho surpreendente, o Don Pascual Edición Limitada Tannat 2000, da bodega Establecimiento Juanicó, sem filtragem. Impressionante a carga aromática deste vinho com 15 anos de vida que passou 24 meses em barrica de carvalho americano de segundo uso. A coloração em taça sequer apresentava halo ocre ou alaranjado, continuava púrpura brilhante e viva. Em boca perfeito, impecável, pronto. Elegante, fruta perfeitamente equilibrada com a madeira, com vivacidade e inquietude irretocável. A noite começava a mostrar-se esplendorosa. Com 13% de graduação alcoólica.

O Toscanini Antologia Tannat 2004 ruborizou as taças com sua cor violeta profundo e trouxe aromas de cassis, framboesa e amoras além de uma boca com taninos finíssimos e ampla estrutura e complexidade. Com 18 meses de passagem em barricas novas de carvalho francês mostrou-se marcante e amplo. Possui 14% de graduação.


Os enólogos uruguaios peculiarmente utilizam um pequeno corte da uva branca Viognier na composição de alguns tintos, com um resultado surpreendente, pois tal casta traz uma secura saliente a boca, o Alto de La Ballena Tannat Viognier 2007 é um exemplo notável de tal blend – cortado em 15% com Viognier -  traduzindo-se num vinho agradabilíssimo com aromas de fruta negra com ameixa destacada, flores silvestres, violetas e baunilha e boca macia e convidativa. Estagia 9 meses em barricas novas de carvalho americano e 13,5% de álcool.

Seguindo a degustação, o vinho seguinte foi o Montes Toscanini Corte Supremo Premium 2009, outro blend composto por Tannat, Cabernet Sauvignon e Merlot, que disputou votos como “vinho da noite” com o Tannat 2000 da Juanicó. Fantástico vinho do enólogo Leonardo Toscanini, que pode traduzir toda a excelência da viticultura uruguaia. Passa 18 meses entre barricas americanas e francesas, de primeiro e segundo uso. Com 14% de graduação alcoólica. 
       

Depois quem se apresentou foi o Gimenez Mendez Tannat Premium 2011, um vinho potente e correto, de taninos marcantes e grande complexidade. Trouxe notas mentoladas, fruta expressiva, compota e especiarias. Em boca amplo, de ótimo corpo e persistência. Um vinhaço que repousou 1 ano em barrica de carvalho francês e americano! Apresenta 14% de volume alcoólico.    


Por último o Bouza Monte Vide Eu 2012, premium da bodega-boutique homônima, um corte de Tempranillo, Merlot e Tannat, ainda jovem e por isso musculoso e irrequieto ao paladar. Um vinho que pede comida, estruturado e complexo com potencial de guarda para no mínimo 10 anos!  Com 14% de graduação alcoólica.  


Ao final do encontro uma certeza reinou absoluta entre os presentes: o vinho tinto brasileiro ainda tem muito para percorrer até chegar ao patamar dos vizinhos uruguaios! O Uruguai é um dos poucos países produtores que luta para não se render à padronização do vinho que visa apenas o comércio, pelo contrário, dizem “este é o nosso vinho. Se você gostar, ótimo, se não, continuaremos a fazê-lo do mesmo jeito, pois somos autênticos”.


Quem é Daniel Arraspide?

Daniel Arraspide é um embaixador do vinho uruguaio. Em suas andanças pelos continentes coleciona amigos, admiradores e simpatizantes do mundo do vinho e carrega consigo a paixão pelos bons produtos engarrafados naquele país. Daniel é avaliador de concursos de vinhos e participante de eventos em torno deste universo. Também já foi considerado o “Mais Gaúcho dos Uruguaios” tamanha a sua apreciação pelos espumantes, pela gente e pelas coisas boas do Rio Grande do Sul. Assina trabalhos para revistas e periódicos especializados entre os quais para a Revista Placer, La Voz de la Arena, Enjoy Uy Magazine, Revista Sabores do Sul, Revista Adega, Jornal Bon Vivant, e Exedra 21. É editor do blog Vinos y Bebidas no Portal de Montevideo e site www.vinoybebidas.com um dos mais influentes sites especializados do Uruguai.


Você encontra vinhos uruguaios na Wein Haus, loja especializada em vinhos, localizada na Rua João Pessoa 895, fone 3711.3665 e site www.weinhaus.com.br.

E lembre-se: se beber, NÃO DIRIJA!     



Arretxea 2007: branco de guarda

Os tintos uruguaios carregados de corpo e estrutura

Ótimo blend de Tannat e Viognier

Sinfonia de tintos foi esplendorosa!

A Confraria do Sagu


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