quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O Sul da Bahia


Férias é algo sempre bom, principalmente porque faz com que a cabeça da gente não consiga juntar dois pensamentos, desliga, tem a capacidade de fazer corpo e alma descansarem. É sair do trivial e poder viajar conhecendo outros lugares, outras culturas traz uma sensação de despreendimento e de liberdade. Um de meus destinos preferidos é a Bahia, a qual já me recebeu por onze vezes! Salvador, Morro de São paulo, Boipeba, Forte, Taipus de Fora, Itacaré, Porto Seguro, Trancoso, caraíva, ufa... E é o relato da última ida aquelae estado axé que trago para este espaço, a região chamada “Costa do Descobrimento” que começa na Ponta do Corumbau e vai até Santa Cruz de Cabrália, passando por Caraíva, Espelho, Trancoso, Arraial d’Ajuda, Porto Seguro e Coroa Vermelha, todas no sul da Bahia. Neste trecho avistado por Cabral há quinhentos anos atrás, ocorrem lugares paradisíacos, diferentes, descolados, charmosos e de rara beleza natural.

A tranquilidade do mar em Coroa Vermelha

A dica é alugar um carro, colocar o pé na estrada e percorrer os dois extremos, buscando conhecer tal extensão de belas praias de águas azuladas e calmas. Porto Seguro, destino turístico mais procurado do Nordeste revela toda a sua proposta mais comercial e destinada as festas para jovens espinhentos. Estes podem aproveitar a zoeira das megabarracas de praia Tôa-Tôa, Barramares e Axé Moi. Descendo para o sul, o caminho mais curto é o de estradinhas de areia que separam os vilarejos e as praias. O destino mais longínquo – na verdade o mais demorado é atravessar a balsa que liga Porto Seguro a Arraial d’Ajuda na alta temporada que leva com sorte, ao menos uma hora (!!!) – é Caraíva distante cerca de 80km de Porto Seguro.

A travessia do Rio Caraíva para chegar a vila

No caminho uma das paradas é na aldeia dos índios pataxó para comprar uma lembrancinha do artesanato indígena e para tirar foto com os animais de estimação da aldeia, os bichos-preguiças! Mansos e verdadeiramente preguiçosos eles se agarram ao pescoço e abraçam-se afetuosamente com suas enormes unhas. Na chegada a Caraíva, deixa-se o carro do lado de cá do rio de mesmo nome e atravessa-se de canoa para a vila que não tem automóveis trafegando nem motos, somente charretes, cavalos e pessoas a pé! A sensação é que a travessia nos faz voltar quarenta anos no tempo. A vila é pequena, tem alguns restaurantes simples e de boa comida caseira – a energia elétrica chegou há apenas dois anos por lá!!! - e umas pousadinhas para descansar.

O "centrinho" de Caraíva

Pelo difícil acesso tudo é mais caro: R$ 8,00 uma cerveja, R$ 6,00 uma água mineral ou refrigerante! O rio Caraíva desemboca no mar e nesta península se localiza a vila, rodeada de coqueiros, amendoeiras e jaqueiras, com um mar azul esverdeado encantador no horizonte próximo. Bacana é alugar bóias feitas de câmara de pneu de caminhão e descer o rio Caraíva somente no embalo de sua preguiçosa correnteza. Mesmo ficando pouco tempo, restou uma certeza: Caraíva merece uma semana de passeio na próxima oportunidade!

A tranquilidade quase bucólica da praia em Caraíva

Deixando Caraíva para trás, subindo de volta para o norte, a próxima parada é a Praia do Espelho - umas das mais bonitas do sul da Bahia e que leva este nome devido as suas águas cristalinas espelharem o sol e a lua - e principalmente para um programa agendado com três meses de antecedência: almoçar no Restaurante da Silvinha, do qual falarei abaixo.

O Restaurante da Silvinha, na Praia do Espelho

No Espelho e suas adjacências localizam-se algumas das pousadas mais sofisticadas do Brasil, com destaque para o luxuoso condomínio Outeiro das Brisas, um complexo de pousadas localizado no alto de uma falésia e pertencentes a um grupo de italianos que conta inclusive com aeroporto exclusivo para receber celebridades tais como Michael Schumacher, Leonardo di Caprio entre outros. Conta também com o único campo de pólo da Bahia. Logo adiante acomoda-se sobre outra enorme falésia o classudo Club Med de Trancoso, o mais sofisticado do Brasil, com campo de golfe espraiado no alto de um platô com vista para o oceano.

A vista da Praia do Espelho

Saindo da Praia do Espelho, percorridos vinte quilômetros de estrada arenosa, chega-se ao mais deslumbrante e charmoso cenário da Bahia: Trancoso um lugar que pode ser definido como de uma rusticidade ultra-chique!

O "Quadrado" de Trancoso

Sentar num dos restaurantes com mesas instaladas embaixo das amendoeiras num final de tarde no Quadrado, o nome do lugar semelhante a uma grande praça do tamanho de dois campos de futebol mais ou menos, em cima de um platô, com gramado em seu meio que inicia na igreja que fica de costas para o mar, e se estende em suas laterais por uns duzentos metros cercado de restaurantes e pousadas chiques instaladas em casarios antigos, embaixo de gigantes amendoeiras de muita sombra. Ali desfilam celebridades que fogem do agito e muita gente bonita, principalmente estrangeiros. Trancoso exala poesia e esta pode ser sentida por todos os lados e merece também uma semana de pé para o ar, respirando toda a sua magia e deslumbre.

Os restaurantes embaixo das amendoeiras do Quadrado ao entardecer

Depois de Trancoso e sua definição impossível de ser escrita, só sentida, o rumo é a vila de Arraial d’Ajuda e sua famosa Rua do Mucugê, point onde se localizam as descoladas lojas da vila e dezenas de restaurantes. À noite a rua fica impedida do trânsito dos carros e por ela só passam os turistas e os nativos que trabalham por lá. Argentinos, chilenos, bolivianos, enfim, Arraial concentra um sem número de estrangeiros, quase todos jovens, que vieram conhecer o lugar e acabaram ficando e se espalhando em trabalhos nos restaurantes, pousadas e lojinhas do lugar. Numa delas tive a concordância de um funcionário argentino de que Pelé - e não Maradona – foi o melhor jogador de futebol de todos os tempos, pois o cliente tem sempre razão!

Rua do Mucujê em Arraial D'Ajuda à noite com seus bares e restaurantes

Num dos dias seguintes uma boa distração é o passeio até uma aldeia pataxó em Coroa Vermelha, ao norte de Porto Seguro e o contato com os índios dos “tempos modernos”, amparados por celular, TVs via satélite e máquinas de cartão de crédito em suas ocas.

Muito artesanato principalmente de objetos de madeira e côco, colares, gamelas, tábuas de cortar, pratinhos, bolsas, colheres, garfos e conchas e mais uma infinidade de trabalhos manuais. Nesta localidade há uma escola para os brancos aprenderem a falar e escrever na língua dos pataxós, ministrados pelos próprios índios. E Coroa Vermelha também possui praias lindíssimas e de águas mornas e esverdeadas, com braços de areia que se espalham mar adentro na maré baixa. Degustar uma moqueca de lagosta pescada no dia no almoço na beira do mar é a melhor pedida!

Moqueca de lagosta fresca

Adiante de Coroa Vermelha, vêm o município vizinho de Santa Cruz de Cabrália, diga-se uma das primeiras vistas de Pedro Álvares Cabral em sua chegada a costa brasileira e onde foi rezada a primeira missa em terra firme e suas belas casas margeando o rio João Tiba.

O porto de Santa Cruz de Cabrália

É neste rio e seus manguezais que acontece o tradicional banho de lama, pois dizem que o barro preto e cheirando a enxofre possui características renovadoras. Difícil é tirar o cheiro de ovo pobre que fica na pele por quase três dias, mesmo com dezenas de banhos tomados... Logo adiante a praia de Santo André deslumbra o visitante com suas areias brancas, precária estrutura comercial – por isso que é bacana – mar calmo e água na temperatura ideal. Adiante da costa um enorme muro de corais segura o mar mais nervoso, transformando a praia numa enorme piscina de águas transparentes.

A praia de Santo André

DICAS DO GOURMET:

Restaurante da Silvinha


Não é um restaurante convencional a começar pela sua localização: saindo de Porto Seguro leva-se quase duas horas de carro em estrada ruim para chegar a Praia do Espelho, no alto de um morro. Aí desce-se uma escada esculpida na terra pela encosta dentro da mata e chega-se a praia. Caminha-se pela areia fofa uns quinze minutos e depara-se com um riozinho que desemboca no mar. Atravessa-se na maré baixa com água na cintura e na alta com água nos ombros e então chega-se a uma casa rústica envolta em coqueiros e se é recebido pelo largo sorriso e conversa mansa da Silvinha, uma paulista hippie que há 35 anos trocou o mar de concreto de São Paulo pela paradisíaca Bahia. Há quinze anos montou um restaurante intimista e reservado que serve apenas cerca de doze pessoas, em duas mesas acomodadas entre enormes almofadas e espreguiçadeiras. O cardápio é naturalista, não serve carnes vermelhas, apenas peixe e é menu confiança, ou seja, come-se o que a Silvinha preparou para aquele dia. E come-se muito bem, diga-se de passagem! Naquele dia foi servido postas de peixe com um molho aveludado de laranja, shoyu e gengibre, acompanhado de legumes salteados com gengibre (bastante saliente por sinal), lentilha com côco, abacaxi picado com hortelã, arroz integral com cravo e canela, um chutney de manga, molho de maracujá e purê de banana da terra. Para encerrar um manjar chamado Maravilha de Côco. Tudo muito bem feito e acompanhado de uma caipira de maracujá! Depois do almoço encerrado lá pelas quatro da tarde, só restou-me descansar nas espreguiçadeiras e curtir uma vista que não tem preço. É por esta rusticidade chique que a Silvinha tem mais da metade de seus clientes, estrangeiros e movimento o ano todo, precisando reservar data com uma boa antecedência para desfrutar de seus prazeres gastronômicos.

Cocada da Tia Nenzinha

Imperdível deixar de provar a melhor cocada do nordeste, preparada pelas habilidosas mãos de Dona Ângela, uma senhora baiana de sorriso fácil e palavras gentis, que oferece uma cocada de forno feita com mel que é um capítulo a parte. Fica na Passarela do Álcool, defronte o Restaurante Tia Nenzinha.

Barraca do Jow

Assim como entre dezenas de barracas de drinks que servem o tradicional Capeta – uma mistura de vodca, guaraná em pó, cacau, leite condensado e gelo – uma se destaca em especial e está sempre lotada, a Barraca do Jow, um baiano comunicativo, formado em hotelaria e que se especializou na preparação de drinks e batidas com destaque para o Virgem Enrustida, uma batida à base de maracujá e abacaxi, saborosamente provocante. Também na Passarela do Álcool defronte o Restaurante Colher de Pau.

Restaurante e Pousada El Gordo

Beber uma cerveja cristalizada de gelo no deck deste restaurante dono de uma vista espetacular da praia de Trancoso admirando o sol que se põe lenta e preguiçosamente enquanto as luminárias mansamente vão uma a uma se acendendo é um programa absolutamente obrigatório a ser feito nesta e nas demais vidas.

Aipim

Ir ao Aipim, restaurante instalado no centrinho de Arraial d’Ajuda, é uma delícia, literalmente falando, pois além de degustar os pratos de um dos melhores restaurantes da Bahia o ambiente e a decoração são sofisticados e embalados por uma ritmada trilha de jazz. As belas atendentes usam estilosos uniformes coloridos e colados ao corpo.

PF do Paulinho Pescador

Uma boa e barata dica para um rápido almoço em Arraial d’Ajuda é o Restaurante PF do Paulinho que serve todos os pratos em criativas tijelas de madeira, entre eles moqueca, bobó de camarão, carne de panela, todos ao preço único de dezoito reais. Fica localizado na pracinha principal de Arraial d’Ajuda.

Manteiga de Garrafa

Um dos principais ingredientes presente na culinária nordestina a manteiga de garrafa é um tipo de manteiga que se mantém líquida em temperatura ambiente, pois ela vai ao fogo em baixa temperatura durante algumas horas e depois de cozida, não volta a ficar sólida. Usa-se muito nos pratos de carne, legumes e em alguns peixes.

Pequi

É uma frutinha utilizada das mais variadas formas, seja cozido, misturado no arroz, nos pratos à base de galinha, com massas, com variadas carnes e peixes e até em doces e licores. E o inusitado desta frutinha é que sua polpa macia e saborosa deve ser comida com cuidado, pois cobre uma camada de terríveis espinhos que se mordidos fincam na língua e na boca. É ingrediente do tradicional Arroz com Pequi.

Azeite de Dendê

O dendezeiro é uma palmeira originária da costa oriental da África e o óleo originário desta palmeira, o azeite de dendê, é consumido há mais de 5.000 anos e foi introduzido no continente americano a partir do século XV, coincidindo com o início do tráfico de escravos entre a África e o Brasil. Atualmente o azeite de dendê é o óleo mais produzido e consumido no mundo. É excelente como óleo de cozinha e frituras, sendo também utilizado na produção de manteiga vegetal. Muito usado em moquecas, caldeiradas, legumes e na fritura do tradicional acarajé.


Aos olhos do menino nativo, a beleza da Bahia

6 comentários:

  1. Sou baiana do sul da Bahia, conheço essa região quando ainda era mata e não havia a BR 101, faz um bom tempo, e sempre a achei muito linda, as areias brancas e finas, a cor um tanto esmeralda do mar... lindo!!!

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    1. Concordo com você! Além de ser um estado com um litoral exuberante, o povo baiano é uma simpatia! Abraço

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  2. sou baianinho de Porto Alegre , nunca vi tanta praia linda.....

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  3. cheguei apouco tempo da Bahia e achei o povo de lá muito simpatico e acolhedor.. Gostei demais!!

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  4. tô indo de novo, e feliz da vida pra curtir uns dias por lá, amo trancoso.

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  5. Ola, parabens pelo blog e pela material! Sou professora da Universidade Federal do Ceara e estou escrevendo um livro sobre patrimonio mundial costeiro, a ser publicado em ingles pela editora Springer, da Holanda. Estou precisando de duas fotos alta resolucao das praias de Porto Seguro para ilustrar o livro, e talvez voce possa me ajudar? O credito seria concedido. Agradeco a atencao e um retorno no e-mail vcs@ufc.br

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