quinta-feira, 22 de agosto de 2019

O enólogo que nasceu para ser vinho!


Fundador da Vinícola Almaúnica esteve em Santa Cruz a convite da Confraria do Sagu!
 
Márcio Brandelli apresentou seus vinhos e contou um pouco de sua história
Era uma tarde de sábado lá em 2010. Já tinha ouvido falar numa nova vinícola fincada no Vale dos Vinhedos em Bento Gonçalves construída sob arquitetura inovadora e elegante e capitaneada por um inquieto enólogo e sua irmã advindos de uma tradicional família enológica. Pois na chegada a Vinícola Almaúnica fui recepcionado por este empolgado enólogo, Márcio Brandelli, o qual mostrou-me suas instalações e os vinhos que começava a vinificar. De lá para cá a Almaúnica cresceu, aumentou o seu portfólio de produtos, ganhou prêmios, tomou corpo e atingiu um novo estágio. E seu fundador, Márcio, esteve em Santa Cruz do Sul como convidado no encontro da Confraria do Sagu – confraria especializada na análise técnica de vinhos – e mostrou um pouco do que vem fazendo em prol do desenvolvimento do vinho brasileiro. A inquietude, a sagacidade e a empolgação continuam a mesma de quando o conheci e, autêntico como sempre, apresentou-nos a sua linha de vinhos e também algumas novidades que chegarão ao mercado em breve. O pai dos pequenos Bernardo e Manuela é dono de uma conversa franca e bem-humorada e concedeu esta entrevista exclusiva a Gazeta do Sul e blog Eu, Gourmet cujo conteúdo você acompanha daqui para frente.             

Eu, Gourmet: Por que Almaúnica?
Márcio Brandelli: Porque cada vinho é elaborado com alma e cada garrafa é única. Em 2008 eu e Magda, minha irmã e sócia, montamos este projeto pois tínhamos um sonho de fazer o próprio vinho com liberdade. Estamos fincados no Vale dos Vinhedos onde temos 60% das videiras mas também 30% em Encruzilhada do Sul e 10% em Quaraí.

Vinícola Almaúnica está cravada no Vale dos Vinhedos em Bento Gonçalves
Seus vinhos são reconhecidos pela qualidade e fino manejo. Como você agrega estas características aos vinhos que elabora?
Sou muito detalhista em todos os processos, desde o vinhedo ao engarrafamento. Gosto de resultados positivos e penso sempre no consumidor cada vez mais exigente. É nisso que miro cada um dos 14 rótulos Almaúnica que já elaborei. Para extrair o melhor destas parcela de vinhas lidamos com manejo no vinhedo, buscando rendimentos baixos e cultivando as variedades corretas e arriscando no ponto de colheita até seu índice de alta maturação.

É possível produzir vinhos de alta qualidade no Brasil?
Sim. O produtor tem que focar em resultados de alto nível, custe o que custar, haja o que houver, e ter muita paciência. É assim no mundo todo. Com profissionalismo e buscando o melhor vinho para cada região, com foco em qualidade e não só em retorno financeiro o Brasil - e em especial o RS – pode melhorar ainda mais e muito seus vinhos. Acredito neste contexto de região produtiva que a Campanha Gaúcha tem um potencial enorme a ser explorado.  
 
Vinícola conta com uma ampla linha de vinhos
Você é um enólogo que aposta em variedades não tão usuais no âmbito gaúcho ao menos quando iniciou a produção, tais como Syrah, Malbec. Fale destas castas produzidas pela Almaúnica e o porquê de cultivá-las.
Duas variedades espetaculares. Amadurecem bem, com grande potencial de cor e taninos, porém macios e aveludados. A variedade Syrah, fomos pioneiros no Vale dos Vinhedos, tornando-se a casta emblemática da Almaúnica. Tudo isso motivados pela tendência do consumidor, sempre em busca de novidades. E o Reserva Syrah e o Quatro Castas – que leva Syrah – são os meus vinhos mais premiados.

Você é adepto a passagem de seus vinhos por barrica, fale à respeito.
No meu modo de ver o vinho, acredito muito em duas matérias primas, uva e barrica. A barrica é o pulmão do vinho, aí ocorre toda a micro oxigenação em que aporta taninos e complexidade de aromas para o vinho tanto o branco como os tintos.

Numa safra ruim, de que forma o enólogo consegue extrair o máximo de qualidade e elaborar bons vinhos?
Tomar a decisão de reduzir ou até não elaborar se for o caso. Somente assim poderá garantir uma constância em produtos de qualidade.

O que você acha sobre os vinhos orgânicos e biodinâmicos? É uma tendência?
Todo o mundo do vinho busca usar a mínima intervenção no vinhedo e na vinícola. Creio que orgânicos e biodinâmicos com alta qualidade terão o seu espaço.



A tecnologia faz diferença na produção de vinhos?
Faz e muito. Desde o vinhedo até o engarrafamento. São os pequenos detalhes que refletem no produto final.

No Uruguai temos o Tannat, na Argentina o Malbec, no Chile o Cabernet Sauvignon. Qual a casta tinta que você considera que poderá ser o cartão de visitas do Brasil?
O Brasil é um continente, mas falando em Serra Gaúcha aonde é pioneira e está a maior concentração de vinícolas e vinhedos, a casta tinta é a Merlot.

Qual a sua opinião sobre a posição de alguns produtores brasileiros importarem vinhos de outra nacionalidade e distribuir por aqui? Não é um contra senso?
Cada empresário tem seus objetivos, e buscam ter um portfólio completo de distribuição. Hoje no Brasil 90% do vinho fino é importado, futuramente podemos diminuir esta tendência, com mais qualidade e quantidade e preços competitivos do Vinho Brasileiro.

O enólogo que nasceu para ser vinho!
Por que Argentina e Chile produzem vinhos médios de tão boa qualidade e preço e o que as vinícolas brasileiras podem fazer para alcançarem este patamar?
Tanto Argentina e Chile, possuem relevo, solo e clima com custos menores e tem grande escala de produção, e muito incentivo do governo de subsidiar toda a cadeia. O produtor Brasileiro deve focar muito em pequenas escalas mas com muita qualidade, só assim poderemos no futuro mudar o conceito do Vinho Brasileiro.  



Prato preferido? Capeletoni de Pato com sálvia na manteiga.

Restaurante preferido? Tratoria Primo Camilo

Uma vinícola - fora a que você trabalha - que admira, seja no Brasil ou no mundo?
Viña Montes – Chile

Qual sua uva preferida? Syrah.

Qual o melhor vinho que você já degustou? Um Super Toscano Ornellaia Safra 2007.

Márcio recebeu placa do confrade Homero Agra em homenagem a seu trabalho
no desenvolvimento do vinho brasileiro  
Personalidade admirada na área do vinho?
Adriano Miolo

Deixe uma dica para quem está começando a se interessar em beber vinhos:
Não ter medo de perguntar e tomar muito vinho. Ter humildade e ouvir muito e claro estudar. Só assim poderá usufruir o máximo a bebida dos Deuses.

Como você enxerga a viticultura brasileira daqui a 10 anos e como a Almaúnica estará neste contexto?
A viticultura irá se difundir por várias regiões do Brasil, teremos muitas surpresas boas e assim vamos criando cultura cada vez maior para o brasileiro. E para a Almaúnica um desafio diário na busca da excelência sempre com um foco de qualidade, cuidando os pequenos detalhes, para sermos uma das referências do Vinho Brasileiro.

Confraria do Sagu e o convidado


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